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Em algumas dessas possibilidades, da construção de uma poética, o artista não parte necessariamente de regras, mas pode trilhar perigosamente caminhos que poderão se tornar muito rígidos para uma produção livre, correndo sérios riscos de estar engessados por idéias, por conceitos iniciais, em sua produção. Por vezes pode vincular a caminhos que o ajudarão a trilhar sua trajetória poética com desafios constantes, porém não tão rígidos. O que é certo? O que é errado? Como deve acontecer a interação entre público e arte nessa interface plástico-filosófica? Como deve ser a resposta do próprio artista aos impulsos de novas possibilidades plásticas? Essa interação deve mesmo acontecer? A obra de arte é uma interface de trocas visuais, táteis, psicológicas, interferentes? Segundo Gilbertto Prado1, indagado sobre a interatividade - especificamente na webart, e aqui transpondo sua resposta para a arte como um agente de interação, uma interface possibilitadora de acontecimentos - "em arte não existe obrigatoriedades". (...) 1. Gilbertto Prado nasceu em Santos, em 1954. Artista multimídia, com doutorado em artes e ciências da arte pela Universidade de Paris I, Panthéon Sorbonne. Membro do grupo Art-Réseaux, Paris. Desde 1981, participa de exposições e projetos no Brasil e no exterior, como Doppo il Turismo Vienne iI Colonialismo (Centro Lavoro Arte, Milão, 1989); City Portraits/Art-Réseaux (Galerie Donguy, Paris, 1989); Moone, Atelier des Réseaux - Machines à Communiquer (La Villette, Paris, 1992); Mutations de l'Image, com o Art-Réseaux (Vidéothèque de Paris, 1994); Arte e Tecnologia (MAC/USP, São Paulo, 1995); Mediações (Itaú Cultural, São Paulo, 1997); City Canibal (Paço das Artes, São Paulo, 1998); e Seleção de Web Arte da 24ª Bienal Internacional de Sâo Paulo (1998). No ano de 1999, participa da 1ª Bienal de Arte da América Latina (La Grande Arche La Defense, Paris); da exposição Imateriais (Itaú Cultural, São Paulo); e da 2ª Bienal de Artes Visuais do Mercosul (Porto Alegre). Em 2000, participa, entre outras exposições, de Medi@terra (Atenas); AAA/Isea (Paris); e Link_Age/Mecad (Barcelona). Foi professor do Departamento de Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp. Atualmente, é professor do Departamento de Artes Plásticas da ECA/USP. (fonte: Instituto Itaú Cultural) (...) "O que existe na verdade são artistas que exploram as especificidades do meio e dessa forma PODEM constituir uma nova poética. O que existe também é a necessidade de um conhecimento da mídia para uma exploração conseqüente, pensada e criativa. O importante é ter a consciência da sua ação para produzir um trabalho que possa estender os limites do usual com uma carga de transformação e ruptura criativa". Assim como os desdobramentos na produção do artista dentro de suas escolhas e acumulação de conhecimentos que geram o acontecer artístico, a própria trajetória e opções de formas e modelos em se trabalhar a arte é permeada de informações a serem decifradas. Diante dessas variáveis, de estratégias geradas pelo impulso e a vontade de conhecer novos "medias" a cada dia, novas possibilidades, e de dar ao sentido da arte a infinitude da experimentação é que desenvolvi meu caminho pela arte, minha visão plástica de um universo interfacial, proporcionador de não-regras, e sim obstáculos a serem transpostos a cada idéia repente e fixa em minha mente, meu pensar. Meu interesse pelo texto inserido na obra de arte sempre existiu, antes mesmo de conhecer referências, artistas que já o apropriavam como forma de representação, contextualização, ou contestação em seus trabalhos. As manchetes de jornais, as chamadas televisivas, as notícias de emissoras de rádio e websites jornalísticos, principalmente no que se refere à política e também reportagens policiais, sócio-econômico-culturalmente relacionadas, também fazem parte de minha poética, de meu pensamento e minhas reflexões. Meus trabalhos sempre sofreram interferências diretas quando em alguns momentos um sentimento nacionalista, de patriotismo e de justiça estavam presentes em meus trabalhos. Em muitos desses momentos houve uma preocupação legítima com a situação do Brasil como nação e os acontecimentos que o cercam, influências e interferências também advindas de outros países, ou de outras situações geopolíticas, mas que contribuem diretamente na posição do Brasil perante o mundo e perante seu próprio povo. Assim, influenciado por essas notícias da vida cotidiana - de um mundo que parece normal quando cercado de crimes e injustiças, como aprendemos a ver na TV e através dos meios de comunicação de massa - foram produzidos alguns de meus trabalhos plásticos. Não considero essas escolhas como regras, se não como matéria prima informacional para a representação de momentos específicos. Poderia destacar primeiramente o trabalho "País Subúrbio" (1993 - II Mostra de Arte da Juventude - Ribeirão Preto-SP; foto ao lado), uma colagem com cerca de 80x80cm, com fundo pintado totalmente de preto e recortes de jornal utilizando as palavras "país" e "subúrbio", colados abaixo, um à esquerda e outro à direita. Acima e ao centro, um simulacro do mapa do Brasil, produzido em cola seca. Esses três elementos formavam visualmente uma triangulação criando um efeito de correlação e equilíbrio. Através dessa obra, levantei alguns questionamentos acerca da soberania do Brasil. "Estaria o Brasil se 'equilibrando' apenas pela miséria?" "Será que apenas dessa forma podemos viver?" "Onde estaria o Brasil que tanto sonhamos e vivemos mentalmente; um Brasil de igualdade, de justiça social?". Passei de uma linha politizada, que se originou em "Brasil: País Subúrbio" (1993), para uma linha mais conceitual - e não menos questionadora à cerca da humanidade e seus processos - quando em 1998 e 1999 produzi peças que indagavam a respeito do movimento, do ritmo e do tempo na obra de arte. Na "Série Ponteiros", utilizei painéis em madeira e ponteiros de relógio: ponteiros de minuto, e ponteiros de segundo. A obra deveria ser apreciada em 1 hora ou em 1 minuto. Hoje penso no tempo como meu amadurecimento enquanto pessoa, enquanto artista; no amadurecimento da própria sociedade, seus meios e seus processos.Trabalhei também com caixas de luz ("Partes do Imaginário"), que montadas em posições variadas nos proporcionavam visões frenéticas e rítmicas distintas e particulares. Talvez tenha sido um momento frenético em minha vida. Quem sabe um momento em que eu estivesse esperando resultados mais rapidamente. Em 1999 produzi também "Dorso": uma serigrafia de um dorso masculino, solitária, reflexiva, introspectiva. Faço uma referência a momentos curtos, marcantes, de altos e baixos em nossas vidas. E também momentos em que necessitamos parar e refletir sobre nós mesmos. A sociedade também precisa disso: se encontrar de dentro pra fora (a partir de cada componente da mesma) e de fora pra dentro (a partir do todo para o indivíduo). Em 2000 produzi fotos de frases remetem a cenas acontecidas, que contam fatos por escrito: uma série de fotografias, primeiramente intituladas "Série Violência" e expostas em "Carmim: Imagens da Violência na Arte Contemporânea". Três trabalhos dessa série foram apresentados também no "III Salão de Arte para jovens artistas do Museu de Arte Contemporânea de Americana" em junho 2000. Em seguida, no mesmo ano, essa série foi re-intitulada "A Fome Que o Brasil Não Come" (vide texto da exposição na página 30), sendo apresentada dessa vez na Galeria Municipal de Arte Ido Finotti (Uberlândia-MG), com a mesma conotação, e enfoque na falta de soluções para os problemas em nosso país. Para os trabalhos fotográficos apresentados acima, existiu uma peculiaridade: a opção em não trabalhar com a imagem dos fatos ou dos acontecimentos propriamente ditos - como observamos, por exemplo, na fotografia jornalística - mas com textos impressos em uma folha de papel comum que posteriormente era fotografada. Existia ali uma conversa íntima com cada espectador, de acontecimentos que passavam por suas mentes, acontecimentos esses que não eram vistos por outros, pois apenas cada pessoa se lembra do que já viu e de suas experiências pessoais. A obra está na imaginação, na mente, na memória de cada um. As fotos de "A Fome Que o Brasil Não Come" acontecem subjetivamente; uma subjetividade das experiências pessoais na memória de cada espectador. Outros trabalhos que também questionam acontecimentos inerentes ao dia a dia brasileiro e mostra um pouco da triste "normalidade" do nosso país é a série de fotografias "Bandeira Nacional?", de 2000/2001, onde num simulacro da bandeira nacional substitui-se a frase "Ordem e Progresso" por outras visões talvez mais realistas e atuais, não sobrepondo contudo o desejo maior e a vontade do governo em manter essa ordem, esse progresso, e por conseqüência o crescimento econômico do país e seu desenvolvimento, mas apenas levando o espectador novamente a um modo reflexivo menos engessado, menos direcionado - como vemos quase sempre nos meios de comunicação de massa. Ainda em 2001, fiz alguns trabalhos que transitam pela questão da identidade. Materiais como 3.500 fotogramas ou negativos com fotos de modelos fotográficos feitos por mim num período de cerca de 02 anos (entre 1998 e 1999) fizeram parte dessa base imagética. Outros trabalhos menos "volumosos" e com o mesmo material, porém apresentados de outras formas também foram construídos. No mesmo ano fiz "Digitais Virtuais", que a princípio eram apenas infografias, e depois foram impressas e apresentadas em suportes de papel. Não me aprofundei muito nessas questões. Com esses trabalhos talvez estivesse à procura de mim mesmo, da minha própria identidade enquanto artista. Para me libertar de questões estabelecedoras da arte conceitual e encontrar outros caminhos na minha produção plástica produzi "Ontem senti saudade. Liguei pra ela e falei: te amo" (foto na página seguinte, à esquerda). Estava transitando por um momento em que questões de minha vida pessoal interferiram em minha produção plástica. E hoje, recontextualizo essa obra numa situação em que a Richkiller apressia a mesma em uma das salas do site, num momento em que um elemento de minha produção atual - a própria boneca Richkiller - supostamente contempla um trabalho de um outro tempo. Meu primeiro projeto em webart foi "Brasil?", 2002, (imagem acima, à direita; endereço do site: www.imagemcontemporanea.com.br/brasil) um passo na evolução de um caminho, meu caminho, uma trajetória que decidi trilhar, experimentar. Respaldado por esses projetos anteriores como referenciais plásticos e teóricos procurei para minha primeira proposta em webart, "Brasil?", uma identidade aproximada, porém particularizada pela interatividade, possibilitando às pessoas, aos espectadores da obra, uma reflexão sobre seu mundo, seus atos, e acima de tudo permitindo a troca de informações, e para muitos a possibilidade de gerar um mundo que melhor lhe convém, inserindo conteúdo ao site através de sugestões enviadas a mim. Passei por "Carregando/Loading", 2002 (endereço do site: www.imagemcontemponraea.com.br/carregando) e "Sala do tempo", 2002 (endereço do site: www.imagemcontemporanea.com.br/saladotempo) que mais tarde comporia uma das "salas" meu atual trabalho "Richkiller: Jovens Classificados", 2003. Essa seqüência de experimentalismos, não menos importantes, culminou em minha atual proposta: "Richkiller - Jovens Classificados", no qual questiono o homem-produto, o valor referente à vida e à morte, o valor das pessoas na sociedade atual, valor esse diretamente relacionado ao capital (?), dinheiro, em confusão com sentimentos puros, bons, em relação ao próximo. Em "Richkiller: Jovens Classificados" sem deixar de lado minha preocupação com a violência, trabalho com o desejo de evidenciar os acontecimentos que trazem desequilíbrio à sociedade, trazem desesperança, mas que principalmente, levantem questionamentos. |