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Richkiller: Jovens Classificados Homem-produto. Os compostos gramaticais e a frase citados acima fazem parte do universo real da nossa sociedade atual, (entenda nossa sociedade por sociedade local e sociedade mundial). Pessoas matam friamente por dinheiro. Por interesses econômicos, interesses políticos, por interesses. A sociedade atual, também comumente chamada "sociedade do consumo", está fabricando significativas distorções da realidade. Essa sociedade é uma potencial fábrica de modelos comportamentais perigosos. Também poderíamos entendê-la como a sociedade do imediatismo, e da falta de tolerância à frustração de não poder possuir "coisas", ou seja, bens materiais, principalmente em curtos espaços de tempo. É uma sociedade em que se pensa poder forjar "heróis" da noite para o dia, a partir de breves momentos na televisão. A proposta estratégica para a fama sugerida por Andy Warhol quando comentou a respeito dos "15 segundos de fama", foi tomado ao pé da letra pelos meios de comunicação de massa atuais, principalmente a TV, e também a internet, através de suas modalidades de divulgação e formas de aparecimento. "Richkiller: Jovens Classificados" é um trabalho em webarte, que mostra uma boneca chamada "Richkiller", a qual contém características de uma assassina fria e cruel, mas que por sua aparência física, sua "carinha de Barbie", não levanta qualquer suspeita sobre o que é capaz de fazer. Quais seriam essas características então? Parece não existir um bio-tipo ideal do elemento infrator. Será que quanto menos suspeito melhor? Traçando um paralelo com o caso "Richthofen" (da filha que supostamente tramou a morte dos próprios pais com o namorado), caso esse que chocou todo o Brasil, este trabalho justapõe a relação da sociedade de consumo em que vivemos atualmente com a impossibilidade de mudança das características dos acontecimentos, figurados num mundo virtual, através de uma boneca também virtual e sua relação com os internautas dentro do seu próprio universo. Recentemente foi veiculado na televisão um comercial da Volkswagen, mais especificamente do carro "Gol". A garota-propaganda dizia ao final: "ele não falha nunca", ou algo parecido, se referindo ao carro, enquanto um rapaz apresentável e bonito "falhou" pois decepcionou a moça e as espectativas que construiu em relação ao rapaz apenas pela impressão visual exterior - biotipo, estatura, cor dos olhos, estilo de corte do cabelo, roupas que estava usando, etc - e pela opção sexual do mesmo. A TV tem se demonstrado uma poderosa "ferramenta" de imposição de valores e condutas. A ética atual parece ser baseada na ética da TV, pelo que ela apresenta como correto ou errado, como feio ou bonito. O verdadeiro valor das pessoas parece estar diretamente relacionado ao tipo de roupa que usa, ao modelo e ano do carro que possui, ao modelo do celular que tem e suas funções. Uma das questões é que a própria televisão não parece ser competente e sensível a ponto de mudar sua programação e impor condutas aos anunciantes com relação a comportamentos e outras questões sociais mais profundas. Imagine por exemplo se no lugar de "Domingão do Faustão" e "Domingo Legal" fossem apresentados programas de conteúdo e ensinamento de verdadeiros valores para a sociedade? Se esses horários fossem utilizados para a construção de uma ampla rede de informações sobre como ajudar o próximo, maneiras de se levar uma vida saudável, condutas e posturas que ajudassem a sociedade a aprender e construir um universo pessoal melhor, mais frutífero? Uma televisão com programação mais enriquecida de conteúdo como acontece principalmente nas redes televisivas estatais, além apenas de diversão desinformativa e alienadora? Mas isso não acontece. A semente plantada foi de fúria, revolta. Todos na TV (os profissionais envolvidos com a televisão) parecem viver num outro universo. Os cidadãos comuns mais envolvidos pelo mundo imaginário da televisão querem aparecer a qualquer custo, de qualquer maneira, ganhar um dinheiro fácil, ficar rico da noite para o dia, até mesmo traficar drogas ou matar pessoas pra isso. Quanto vale sua vida? Essa conta matemática pode ter uma resposta assutadora: depende de quanto pagam para executar o "serviço". O valor pela vida e o entendimento sobre o que vem a ser vida e morte para a sociedade atual têm sentidos fortes. Como coloca Maria Helena Oliva Augusto2, em "O Moderno e o Contemporâneo: Reflexões Sobre os Conceitos de Indivíduo, Tempo e Morte": "as relações que os homens compartilham na sociedade, entre elas a própria forma como percebem o tempo, permitem-lhes atribuir significados específicos a várias dimensões de sua existência. O que se pretende nesta comunicação é refletir sobre o sentido que a morte adquire para os indivíduos na sociedade contemporânea e, através dessa reflexão, discutir o próprio significado que atribuem à vida". E conclui: "O apresentado revela um momento crítico: perda do sentido da vida, perda do sentido da morte, vida social sem significado, individualidade impossibilitada. Haverá alguma forma de refazer significações, de reprojetar sentidos, de reconstruir a promessa de indivíduos livres?" (...) "Acredita-se que a sociedade possa fazer emergir outras significações se for capaz de ajudar-nos a reconhecer nossa finitude." (...) "Por outro lado, afirma-se ser inconcebível uma nova criação histórica que possa se opor, eficaz e lucidamente, a este informe e caleidoscópico mundo, espécie de bazar no qual vivemos, se não for instaurada uma relação nova e fecunda com a tradição." (...) "Qualquer das duas considerações supõe a vinculação do passado ao futuro, através do presente, e resgata a observação que, já no século XIX, Tocquevile fez a esse respeito: 'Desde que o passado deixou de lançar luz sobre o futuro, a mente do homem vagueia nas trevas'." 2. OLIVA-AUGUSTO,
Maria Helena. O moderno e o contemporâneo: reflexões sobre
os conceitos de indivíduo, tempo e morte. Tempo Social; Revisado
Sociol. USP; S. Paulo, 6(1-2); 91-105, 1994 (editado em jun. 1995). "Richkiller: Jovens Classificados" proporciona ao internauta a possibilidade de visualizar as características da assassina que é a própria "boneca Richkiller", como modelitos da roupa, acessórios, mas em todas as opções ou em todas as salas, nada se parece com um shopping virtual. Toda a linguagem visual tradicional das lojas na internet está "apagado" em "Richkiller...". É um novo universo proposto. No próprio site, ter as coisas não é possível. Não existem opções de compra, como botões de finalização da negociação, cálculo de fretes e valores dos "produtos". A partir do momento em que escolher as características da sua boneca "Richkiller" também não é muito agradável, pois não é convencional, e finalizar a compra se torna um ato impossível, é oferecida uma outra possibilidade: entrar noutras "salas" do site e experimentar outras experiências da impossibilidade de ter, ou participar de algo. A navegação se torna um ato de peregrinação entre salas que podem apenas ser apreciadas. Todos os links do site "Richkiller..." têm suas funções limitadas. Não é um hipertexto completamente interligado. Não é possível comprar, não é possível escolher, não é possível interagir. A sociedade e alguns de seus cidadãos componentes têm praticado restrições: não é possível viver, não é possível comprar, não é possível escolher, pois os produtos são os mesmos. Todas as necessidades são criadas. É importante perceber que não apenas tem-se que consumir coisas, produtos e pessoas o tempo todo. A sociedade necessita respirar, pensar, refletir sobre si mesma e suas escolhas. Existe um tempo certo para poder ter as coisas. E esse tempo de poder ter as coisas, de possuir, e aqui voltam minhas reflexões sobre a palavra tempo, é um momento que possibilita um aprofundamento de conhecimentos, de "agregação"... um tempo de agregar valores, valores bons, através inclusive de experiências ruins, logicamente, mas que ao final se frutifique num modo de pensar a vida saudavelmente. Na composição plástico-visual do trabalho, me aproprio de algumas "palavras-título" que foram denominadas "senhas" por Jean Baudrillard, em seu livro "Senhas". São algumas delas: "o objeto", "o valor", "o crime perfeito", "a troca impossível", "a transparência do mal", "a sedução", "o obsceno", dentre outras. Cada uma representa um link em "Richkiller...". Posteriormente também foram chamadas de "lembretes", pois a intenção de sua utilização é exatamente a reflexão sobre cada um desses temas em relação a nossas vidas atualmente. Noutro link, a "sala do tempo", o internauta não espera nada além do acontecimento ali apresentado: um ponteiro que não marca precisamente nenhuma unidade de tempo, e gira ininterruptamente. Com referência também a questões relacionadas ao tempo, está a "sala de espera": uma página com a palavra "espera" ao centro, em silêncio absoluto, e exatamente da mesma forma todo o momento que o internauta a estiver observando. Qual sua tolerância em esperar pelos momentos certos em poder fazer as coisas em sua vida? Qual o tempo certo para as tomadas de decisões? Quanto tempo é necessário para estarmos maduros e compreendermos questões relevantes das relações humanas? Fazendo uma ponte com obras anteriores, por uma questão de opção, me apropriei do ponteiro que gira ininterruptamente no link "Tempo", e trabalhei com variações de "Partes do Imaginário" (1999) no link "Boate Richkiller". Quadrados brancos se agitam freneticamente junto à imagem da "boneca Richkiller". As verdadeiras vítimas da sociedade atual, as pessoas que se desequilibraram pelas pressões dessa sociedade, também se divertem, dançam, vivem uma vida normal como qualquer outro ser. São todos esses fatos possivelmente invisíveis, imperceptíveis aos nossos olhos, e que acontecem de modo às vezes inesperados. O espaço entre "quem sou eu?", "o que estou agregando de valores?", "como absorvo esses valores?", são detalhes importantes para a formação do ser, mesmo que inconscientemente. Richkiller:
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